O andarilho e sua sombra esportiva

Paulo Leandro

Quando os poucos alunos do professor Ferdinand de Saussurre publicaram a primeira edição de Curso de Linguística Geral, em 1913, estavam também dobrando uma esquina conceitual: a palavra não era mais a coisa à qual se referia.

As anotações que, cuidadosamente, a viúva Saussurre jogou no lixo no dia seguinte ao óbito do desconhecido professor sobreviveram nos cadernos dos alunos. E, assim, desde então, sabemos nossos limites: a palavra liga uma ‘imagem acústica’ a um conceito.

Recuperamos, assim, algo que mesmo antes de Kant, no século XVIII, já tínhamos uma boa probabilidade de certeza: só alcançamos o fenômeno, por meio de nossos sentidos, mas é impossível perceber ‘a coisa em si’. Só o que temos são perspectivas. Nada mais.

Um pouquinho mais adiante, em meados do século XIX, Schopenhauer entendia o mundo como vontade e representação; mais ou menos, nesta mesma época, Nietzsche vaticinava: “não há fatos, só interpretações”.

“Por isso, é tão importante não esconder o time que amamos, pois ao nos desnudarmos, podemos monitorar melhor nossa paixão e permitir que o outro para quem escrevemos, também nos ajude a interpretar com mais equilíbrio e moderação o fenômeno descrito.”

Por um motivo ou outro que não cabe debater aqui, na estreia deste saite esportivo, os cursos de jornalismo passam solenemente batidos nesta questão que é central para nosso trabalho. Por desconhecimento e despreparo, muitos de nós ainda está em 1912.

Acreditam os jornalistas crédulos terem o super-poder de transmitir para sua audiência a “realidade” tal qual ela se deu. Nem fariam qualquer esforço em tentar entender que há o ‘real’, sim, mas ‘realidade’ é a doação de sentido que acrescentamos a este ‘real’.

Então, se há o jogo, o ‘real’, não temos a menor chance de competir com os deuses da comunicação a ponto de transmitirmos este jogo, este ‘real’, tal qual aconteceu. Acrescentamos aos dados básicos, a ‘ficha técnica’, nossa interpretação, nosso filtro.

O que eu gostaria de curtir neste site é a assimilação desta virada linguística cujo poder recai sobre a interpretação da coisa, aposentando de vez a arrogância do jornalista comum, aquele que tudo vê e tudo sabe, com a fórmula mágica de “verdades absolutas”.

Sejamos mais humildes e suaves, como um banho nas corredeiras amendoadas do Serrano, nos caldeirões, este sim, mágicos, onde eu e o editor já quebramos a guia de seu Adalberto, colecionando garrafas com Dioniso, as bacantes e o sábio Seleno.

Só o que podemos alcançar do ‘real’ é a ‘realidade’ cuja significância somos nós quem a produzimos. E, avançando mais um pouquinho, ‘realidade’ é a representação o mais fidedigna possível do que a coisa foi ou é.

Aqui, nos entrelaçamos com a moral, como um casal, em sua melhor intimidade. Porque não se pode representar a ‘realidade’, sem o necessário auto-conhecimento de nossos afetos, nossas inclinações, nossos interesses, nossas desmesuras e humanidades.

Que a interpretação da interpretação da interpretação da interpretação nos conduza à estrada do nosso novo infinito, onde a verdade absoluta, por decrepitude, eternizou-se sem vigor, como a cigarra, o ex-esposo da divindade que esqueceu de dar-lhe força.

É o valor moral da intenção o nosso melhor fundamento. Precisamos representar o ‘real’, transformando-o em ‘realidade’, de tal forma que seja bom para as pessoas ter acesso aos fenômenos o mais próximo possível das ocorrências das competições.

Por isso, é tão importante não esconder o time que amamos, pois ao nos desnudarmos, podemos monitorar melhor nossa paixão e permitir que o outro para quem escrevemos, também nos ajude a interpretar com mais equilíbrio e moderação o fenômeno descrito.

Desejo ao amigo Moysés Suzart, xará do homem da tábua, que erija seus 10 mandamentos sobre o alicerce da vibração positiva do conhecimento e jamais ouse dizer-se o descobridor de alguma verdade. Cobiçai as interpretações dos próximos.

A grande contribuição deste site esportivo, e seu melhor diferencial, na minha interpretação, seria abrir-se para o perspectivismo mais saudável: que possa, como as aranhas e as moscas, ver as coisas dos mais diversos ângulos.

Que a interpretação da interpretação da interpretação da interpretação nos conduza à estrada do nosso novo infinito, onde a verdade absoluta, por decrepitude, eternizou-se sem vigor, como a cigarra, o ex-esposo da divindade que esqueceu de dar-lhe força.

Em forma de oração, desejo anunciantes em número suficiente para que o amigo mano chao possa produzir uma edição melhor que a anterior, sempre, num crescente, energia chamando energia, vontade de potência: porque nascemos plenos, sem pecado original.

Em louvor à deusa Éos, a Chega-Cedo, e seus irmãos Hélio e Silene, canto aos olimpianos o pedido de proteção a este espaço de informação esportiva; que atraia riquezas, conhecimento, moderação, coragem e justiça; e multiplique interpretações!

Nada de almejar perfeições, dadas apenas a deuses e falsos mitos, mas sempre na busca de oferecer ao internauta esportivo as informações corretas sobre seus times e ídolos, defendendo valores do desporto e o melhor diálogo com o mercado e os grupos sociais.

Momentum!

Paulo Leandro é jornalista, doutor em Cultura e Sociedade. Nativo do Alto da Estrela, também sabe todas as trilhas de Lençóis, é um rubro-negro que veste todas as camisas e dono das melhores fotos do nascer do sol. Sua casa no Saboeiro é o maior museu sobre futebol baiano na América Latina e deveria ser tombado. É o Google na sua forma bruta.

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