Leão chinês

Confira entrevista exclusiva com o atacante Elkeson

Elkeson é um atleta que nasceu Leão, mas se tornou um Dragão Chinês. Ídolo no Brasil, o atacante revelado pelo Vitória agora carrega uma nação dentro de sua chuteira. Aos 30 anos e agora batizado com o nome Ai Kasen (em mandarim), Elkeson tenta levar a China para a próxima Copa do Mundo de 2022, no Catar. Maior artilheiro na história da Super Liga da China, com 103 gols, o atacante também sofre com a epidemia do coronavírus. Com o futebol paralisado, Ai Kasen retornou ao Brasil e estava mantendo a forma no Barradão, onde reencontrou sua família rubro-negra. Ele bateu um papo exclusivo com o SHOW DE BOLA e contou o início da carreira, sua vida na China e o que espera do futuro. Confira!

Você ainda lembra bem sua chegada no Vitória? Como é para uma criança assumir uma responsabilidade tão grande? Você chegou no Barradão com 12 anos…
Lembro bem quando cheguei. Foi no dia 5 de maio de 2002, tenho muitas lembranças deste dia. Deixei meus pais em Marabá (Pará), meu irmão era muito apegado a mim, sofremos muito na minha partida. Recebi muito incentivo do meu pai, mas minha mãe sentiu bastante, achava que eu era muito jovem para sair assim de lá. Mas estava decidido. Costumo dizer que comecei de fato minha carreira em 2000, numa escolinha em Marabá, o Camisa 10. Em dezembro de 2001 fomos disputar um torneio em Itaporanga e o Vitória estava com duas categorias lá, acho que 86 e 88. Enfrentamos o 88 e lembro até hoje daquele jogo. Nosso time era fantástico. No final, cinco atletas nossos vieram para o Vitória. Aqui ficamos durante a infância e adolescência. Foi marcante.

Quais foram as principais dificuldades encontradas por Elkeson nos primeiros dias de China?
O primeiro ano foi muito difícil para me adaptar. Eu sai do Rio de Janeiro em 2013, um calor danado. Chego na China, 3 graus! Me lembro como se fosse hoje, nunca vi um frio daquele quando sai do avião. Mas fiquei encantado com o lugar, o povo. Foi legal minha chegada, muitos não me conheciam, mas estavam no aeroporto me recepcionando. Foi muito marcante ver aquele carinho todo.

“Abdiquei da nacionalidade brasileira, agora quero conquistar a vaga chinesa na copa do mundo. Esta é minha missão.

Quais as diferenças de tratamento e carinho entre a torcida chinesa e brasileira?
No inicio senti muito a diferença. O torcedor chinês procura sempre incentivar os jogadores durante os jogos, senti este carinho de imediato. Aqui no Brasil temos isto também, mas em certos momentos acaba sendo diferente, né [risos]? O brasileiro ama o futebol, o chinês começou a amar recentemente. Curioso é o dia-dia, fora de campo. O chinês é muito tímido, fica com vergonha de chegar nos atletas estrangeiros para tirar uma foto. Muitas vezes eu sinto que um chinês quer tirar foto comigo, mas fica com vergonha de pedir e não encosta. Eu mesmo vou lá e peço para tirar a foto.

O que mais sente falta de Salvador, além da família e amigos?
Há uns quatro anos eu me apaixonei pelo futevôlei. Fui apresentado por amigos e foi amor imediato. Aqui jogo todos os dias. Gostaria muito que a China tivesse uma praia soteropolitana ou uma quadra de futevôlei. Também seria bom se meus amigos pudessem me visitar sempre, mas não dá, né? Este esporte ainda é desconhecido na China, ninguém joga. Também sinto falta de ir no cinema ver um filminho, como fazia aqui…

Você também é daqueles brasileiros que carregam a mala de comida daqui e levam para China, ou já se acostumou com a gastronomia de lá?
Incrível, mas não senti falta da comida brasileira. A comida do atleta é bem balanceada e específica, na China temos acesso a tudo. Não sou aquele brasileiro que precisa comer feijão todo dia. Meu prato é simples: arroz, salada e frango. Um bife, um salmão… Estas coisas têm lá. Tenho facilidade de encontrar o que gosto de comer. Encontrei umas churrascarias em Xangai. Quando sentia muita falta, corria pra lá. Também encontrei uma churrascaria em Guangzhou. É tranquilo.

“Minha mãe é torcedora fanática do Vitória. Se acontecer uma possibilidade no futuro, volto a vestir esta camisa rubro-negra.

Como surgiu o convite para ser jogador da seleção chinesa? Você aceitou de cara, sem rodeio?
Durante um bom tempo já se falava sobre minha naturalização, desde os tempos em Xangai. Muitos atletas, inclusive de outros times, me apoiavam nesta questão, queriam que eu me naturalizasse. Lá é incrível, mesmo não falando a mesma língua, sempre recebi muito carinho dos atletas chineses, há uma amizade grande entre nós. Quando aconteceu o convite oficial, eu já sabia o que queria. Conquistei tantas coisas importantes na China, fui tão bem recebido, achei que seria um grande desafio na minha carreira. Conversei com meus pais, mas estava decidido em aceitar. Queria ouvir a opinião deles, que me apoiaram. Estou muito feliz. Abdiquei da nacionalidade brasileira, agora quero conquistar a vaga chinesa na copa do mundo. Esta é minha missão.

Você é ídolo aqui e na China. Como vai ficar o coração de Elkeson quando enfrentar o Brasil numa Copa do Mundo?
[longa pausa.] Ultimamente tenho recebido muito carinho dos torcedores do Vitória e Botafogo, além daquele torcedor que conhece e acompanha minha carreira. Senti muito o carinho do torcedor brasileiro e recebi muitas mensagens quando abdiquei da cidadania brasileira no esporte. Foi uma decisão minha. As pessoas precisam entender que era um desafio pra mim, dificilmente teria ainda esta oportunidade no Brasil. No final da minha carreira, receber um desafio deste, para mim é uma motivação muito grande. Acredito que o futebol chinês evoluiu muito e a seleção tem condições de disputar uma Copa do Mundo, é o grande objetivo na minha carreira.

Você está de férias forçadas aqui no Brasil, por conta do Coronavírus. Que recado você dá ao povo chinês, que passa por uma prova de superação tão grande?
Começamos um mês de pré-temporada, mas foi interrompido pela epidemia. Infelizmente aconteceu esta situação do coronavírus, muito triste para todos nós. Desejo força ao meu povo, Jia you Wuhan! (força, Wuhan, cidade que é o epicentro do Coronavírus). Desejamos que o país se estabeleça o mais rápido possível. Estou mandando boas energias ao nosso povo.

Ainda pretende jogar no Brasil, especificamente no Vitória?
Claro que ainda pretendo jogar no Brasil. Durante a semana que treinei no Vitória foi muito especial para mim. Depois de tanto tempo, voltar ao clube, onde fui muito feliz, marcou. Queria agradecer ao presidente, que cedeu este espaço para mim. Meu amigo Paulo Carneiro, muito obrigado, quero te agradecer aqui. Encontrei tantos amigos da minha época, ri muito, foi como reencontrar minha família. Vitória é um time que aprendi a amar. Amo e torço, assim como toda minha família. Minha mãe é torcedora fanática do Vitória. Se acontecer uma possibilidade no futuro, volto a vestir esta camisa rubro-negra. Meu objetivo agora é colocar a seleção chinesa na Copa. Depois é pensar no encerramento de minha carreira e, quem sabe, encerrar vestindo a camisa do Leão. Se isto correr, ficarei muito feliz.

 Colaborou Bruno Carvalho 

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